E se eu emagrecer?

Ontem conversava com um amigo sobre essa questão de emagrecimento. Quem me acompanha por outras redes sociais sabe que eu milito mesmo a causa do “todo corpo é um bom corpo”, especialmente porque sofri na adolescência e no início da idade adulta por ser gorda. Isso me rendeu muitas ótimas amizades, inclusive um grupo que troca dicas, discute problemas e divide coisas boas e ruins diariamente e do qual adoro fazer parte. Esse amigo questionou se eu seria excluída do grupo caso emagrecesse, afinal, ele sabe que eu faço uma reeducação alimentar com a LCHF (low carb high fat, qualquer dia faço um post contanto como funciona) e que, por conta disso, desde que comecei, emagreci uns 10kg (e continuo gorda, gente, porque pra eu ser magra tenho que emagrecer uns 30kg!).

Nunca pensei sobre isso. Até porque, na minha cabeça, eu nunca vou ser magra. Eu tenho um biotipo que dificulta bastante as coisas no quesito “emagrecimento”: eu engordo com toda a facilidade do mundo e demoro pra emagrecer. Isso somado ao fato de eu não ser a pessoa mais paciente do mundo, que é o que facilita a auto sabotagem quando tento fazer dietas.

Eu conheço gente que fez e faz todo o esforço do mundo pra ser/se manter magro e não fico apontando isso ou aquilo a respeito dessas pessoas. Acho, de verdade, que é uma escolha de cada um. Não é uma apologia ao “não saudável”, mas já foi até provado cientificamente que não é exatamente a relação do peso que deixa alguém insalubre (depois eu procuro os artigos e posto, vocês vão ficar surpresos). Eu é que não tenho disposição (não estou disposta, com licença!) a fazer um esforço extra. Me adaptei extremamente bem à LCHF e por isso continuei, mesmo não vendo um resultado tão maravilhoso como o das pessoas que fazem o tal esforço extra (e que, às vezes, nem consideram isso “extra”, hehe). E quanto aos exercícios, falo sem dó que faço o que posso. Não vou acordar mais cedo pra malhar, não vou dormir mais tarde pra malhar. Eu malho quando dá, dentro do tempo que eu tenho disponível, sem sacrificar sono ou outra atividade do meu dia a dia. Ah, e eu não passo nem na porta da academia no fim de semana! Pra mim, isso é esforço extra. “Então vai ficar gorda a vida toda!”, já imagino alguém dizer. E vou, né, fazer o quê? 🙂

Ser saudável não é ser obcecado por um corpo ideal pregado pela mídia. E essa é a bandeira que eu tento levantar diariamente, mesmo que eu seja uma formiguinha no meio de um mar de blogueiras fitness. Você pode (e deve) ter o corpo que quer ter, seja ele magro e sarado, seja ele gordo. Mas você precisa, e isso eu falo de coração, saber os limites do seu corpo e do que você quer fazer com ele. Essa semana, uma amiga falou sobre um momento da vida em que vivenciou um distúrbio alimentar e perdeu metade do seu peso corporal. Pra sociedade, a experiência foi ótima. Visivelmente e dentro dos padrões considerados “saudáveis”, ela havia emagrecido e ganho saúde. Mas desmaiava pelas ruas, se alimentava minimamente, foi parar num hospital. Eu fiquei bastante impressionada.

E quanto ao meu grupo de amigas, espero que não me excluam caso eu venha a emagrecer mais um pouco com a LCHF, haha… Não é o meu objetivo e eu sequer me esforço o suficiente (opa, a sociedade diz que não me esforço!) pra que isso aconteça, mas saibam que eu tenho muito apreço por todas. E, mais importante, tenho muito apreço pela beleza possível, que é a que todo mundo tem, independente do que a mídia prega (e photoshopa) por aí.

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Pode me chamar de gorda.

Pode me chamar de gorda. Não vou dizer que não vou ficar chateada, que não me atinge porque “gorda” é um adjetivo que não define caráter. Me atinge sim porque a sua intenção ao me chamar de gorda é a de me diminuir. Me atinge de tal forma que mesmo lutando diariamente para que meninas parem de se martirizar a respeito do formato de seus corpos, eu me peso com muito mais frequência do que eu gostaria e fico de olho nas roupas que ficam folgadas ou voltam a me apertar. Não posso cobrir com um pouco de base os anos em que fui constantemente lembrada de que “ser saudável e bonito é ser magro”. Mas você pode, sim, me chamar de gorda. Afinal, magra é aquela que veste o jeans 36 (hoje em dia, acho que o tamanho almejado já é o 34, né?). E “gostosa” é aquela que pode até vestir o jeans 40, mas não pode ter um pingo de flacidez no corpo. Eu visto 46, às vezes precisa ser o 48, e flacidez é o meu sobrenome, ainda mais depois da gravidez. Sou gorda e flácida, um prato cheio pra ser usado como ofensa, mesmo que nenhuma das duas palavras indique algo ofensivo. Eu não posso calar você que me chama de gorda e nem apagar a sua ideia de que ser gordo é um desleixo que precisa ser consertado com dietas, horas de academia e até uns remedinhos. Então eu preciso aceitar que não são todas as pessoas que vão me aceitar. Isso, acredite, é difícil. Não ser aceita me remete à adolescência e eu nunca soube lidar muito bem. Simplesmente pus tudo numa gavetinha de pensamento ao invés de buscar formas de enfrentar. Mas eu preciso me aceitar. E todo dia eu dou um passo nessa direção. Às vezes, retrocedo dois passos (quando não gosto do que vejo no espelho e passo o dia bebendo água acreditando que isso vai me “emagrecer” quando, na verdade, isso vai acabar me deixando doente). Mas não desisto. E não desisto porque eu quero que, quando você me chamar de gorda, eu não sinta nenhum tipo de incômodo. Eu não desisto porque eu quero acreditar com todo o meu coração na verdade da palavra “gorda”, que é apenas um adjetivo que indica uma característica física e que não tem qualquer relação com saúde, caráter e beleza. Então pode me chamar de gorda porque é o que eu sou, mas não é quem eu sou. Eu não sou um corpo, eu não sou o tamanho de um jeans.

Ana Togashi (@anatogashi) • Fotos e vídeos do Instagram_20150404232957