Pode me chamar de gorda.

Pode me chamar de gorda. Não vou dizer que não vou ficar chateada, que não me atinge porque “gorda” é um adjetivo que não define caráter. Me atinge sim porque a sua intenção ao me chamar de gorda é a de me diminuir. Me atinge de tal forma que mesmo lutando diariamente para que meninas parem de se martirizar a respeito do formato de seus corpos, eu me peso com muito mais frequência do que eu gostaria e fico de olho nas roupas que ficam folgadas ou voltam a me apertar. Não posso cobrir com um pouco de base os anos em que fui constantemente lembrada de que “ser saudável e bonito é ser magro”. Mas você pode, sim, me chamar de gorda. Afinal, magra é aquela que veste o jeans 36 (hoje em dia, acho que o tamanho almejado já é o 34, né?). E “gostosa” é aquela que pode até vestir o jeans 40, mas não pode ter um pingo de flacidez no corpo. Eu visto 46, às vezes precisa ser o 48, e flacidez é o meu sobrenome, ainda mais depois da gravidez. Sou gorda e flácida, um prato cheio pra ser usado como ofensa, mesmo que nenhuma das duas palavras indique algo ofensivo. Eu não posso calar você que me chama de gorda e nem apagar a sua ideia de que ser gordo é um desleixo que precisa ser consertado com dietas, horas de academia e até uns remedinhos. Então eu preciso aceitar que não são todas as pessoas que vão me aceitar. Isso, acredite, é difícil. Não ser aceita me remete à adolescência e eu nunca soube lidar muito bem. Simplesmente pus tudo numa gavetinha de pensamento ao invés de buscar formas de enfrentar. Mas eu preciso me aceitar. E todo dia eu dou um passo nessa direção. Às vezes, retrocedo dois passos (quando não gosto do que vejo no espelho e passo o dia bebendo água acreditando que isso vai me “emagrecer” quando, na verdade, isso vai acabar me deixando doente). Mas não desisto. E não desisto porque eu quero que, quando você me chamar de gorda, eu não sinta nenhum tipo de incômodo. Eu não desisto porque eu quero acreditar com todo o meu coração na verdade da palavra “gorda”, que é apenas um adjetivo que indica uma característica física e que não tem qualquer relação com saúde, caráter e beleza. Então pode me chamar de gorda porque é o que eu sou, mas não é quem eu sou. Eu não sou um corpo, eu não sou o tamanho de um jeans.

Ana Togashi (@anatogashi) • Fotos e vídeos do Instagram_20150404232957

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