Mamãe não faz nada!

Vez ou outra, na escola, questionam o meu filho sobre a minha profissão. A resposta dele é sempre a mesma: mamãe não faz nada. Afinal, se ele não me vê sair de casa cedinho, “arrumadinha”, e voltar no fim do dia parecendo um panda com a maquiagem meio derretida no rosto, ele conclui que eu não tenho emprego e não faço nada (fora de casa, formalmente, como outras mães). É difícil explicar para um serzinho no auge de seus quatro anos de idade que a mamãe, na verdade, faz uma pá de coisa, inclusive profissionalmente.

Acontece que, quando engravidei dele, eu estava na reta final da minha faculdade de Jornalismo. E por reta final, compreendam elaboração do projeto de monografia e da própria, aquela LYMDRA temida por todos. Além disso, eu era estagiária e já sentia o gostinho da vida real de uma jornalista metida com assessoria de imprensa (aliás, isso foi muito enriquecedor porque, né, rola tudo de um modo bastante diferente na sala de aula e no escritório).

O estágio ficou pelo caminho. O contrato já estava no final e não fazia qualquer sentido renová-lo se, daqui há pouco, uma “licença maternidade” viria. Já o projeto de monografia, esse nasceu antes do filhote. E só não virou uma monografia imediatamente porque eu precisei parir.

E após esse momento único, ímpar e nada fácil da minha vida, eu precisei parar. Ter um bebê em casa foi muito mais complicado do que eu podia imaginar ou tentar prever. E, com isso, a reta final da faculdade se estendeu por mais uns três anos.

Foi nesse intervalo de tempo que eu, tendo que dar conta de um bebê, de uma casa e de uma monografia, resolvi começar a “me virar” em relação ao profissional. Por mais que eu quisesse deixar isso por último (acreditem, ser mãe, administrar o lar e a própria vida eram trabalho suficiente pra mim), a pressão interna e externa não deixaram. Resgatei meus certificados de proficiência em língua inglesa e meus conhecimentos adquiridos na faculdade de Letras (a primeira que fiz, mas não conclui porque me transferi para Comunicação) e comecei a revisar e traduzir textos como freelancer.

Mas como é que uma criança tão pequena vai dizer aos professores e colegas que a mãe atua como “revisora ortográfica freelancer”? É mais fácil dizer que não faz nada, porque se não sai de casa pra trabalhar, não deve fazer nada mesmo. E ainda que, da primeira vez, eu tenha ficado levemente chateada com essa resposta, hoje eu compreendo até onde ele consegue ver essa questão. O pai sai pra trabalhar todos os dias, as tias e a avó paterna, também. Eu acordo cedo, faço café da manhã, organizo a casa, levo ele pra natação, pro judô, pra escola, sento no computador e fico digitando coisas sem parar que ele não faz a menor ideia do que signifiquem. Onde é que isso é ter um emprego, né? Se nem alguns adultos conseguem enxergar isso como trabalho, não vai ser alguém de quatro anos que vai conseguir.

Não é mesmo um emprego, é um trabalho. E um trabalho que deveria ser temporário, embora as minhas incessantes buscas por vagas para profissionais de comunicação no Rio de Janeiro estejam parecendo um filme do Indiana Jones ultimamente. Eu finalmente consegui concluir a faculdade e estou apta a ter um emprego formal, o mercado de trabalho formal é que parece não estar apto a me receber. É como dizem por aí: hashtag não está sendo fácil.

E enquanto eu não faço nada, vou fazendo de tudo um pouco e me virando. Quem sabe, em algum momento, o telefone toca e me chamam pra fazer alguma coisa? Aí mamãe vai sair cedo de casa, voltar no fim do dia… E vai morrer de saudade de levar o filhote pra natação, pro judô, pra escola…

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